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terça-feira, 10 de abril de 2012

As vozes dos postes


Voltando à voz do poste Panamá, Roberto Silva, Antonio Peres e Ângelo de Andrade foram alguns dos locutores do serviço de altofalante espalhado pelos postes ao longo da avenida Tupãssi, até o fim dos anos 70. Eram, como eu também fui, os donos das vozes que por muitos anos anunciaram ofertas do comércio, aniversários, hora certa e falecimentos. Foram “a voz do poste”. A cada quarteirão, uma corneta “Delta” formava o conjunto da comunicação principal da cidade. “Ao som desse prefixo musical começa aqui o serviço de propaganda e gravações variadas”. Com essa frase começava todos os dias a programação feita no estúdio que teve vários endereços, até calar-se pra sempre na Rua XV de Novembro, numa pequena sala em frente ao Cartório do Almério. Foi ali que recebi o convite para participar da construção e nascimento da Rádio Jornal. Mas isso eu já contei aqui, em outro artigo. Nos tempos da “voz do poste”, a tecnologia de hoje não existia, nem em sonhos. O que melhor tínhamos eram os discos de vinil. Para os últimos anos do estúdio de altofalantes da cidade restaram sucatas de equipamentos da antiga rádio pirata, a “Porta Voz”, fechada pela Polícia, anos antes. Quando conheci esse estúdio, ele estava instalado numa sala do andar superior do Edifício Garcia. O locutor da hora era Ângelo de Andrade, que se tornaria meu melhor amigo. Eu havia retornado de Curitiba, de uma emissora de rádio antiga, mas moderna em equipamentos. Levei um susto com a improvisação que se via na pequena sala: Um microfone dos anos 60, amarrado com esparadrapo, e um amplificador da mesma idade faziam a potência sonora da voz do locutor. Ao lado, um toca-discos, mais velho ainda, rodava os sucessos da época. Nele, eram tocadas também as melhores produções de propagandas comerciais, gravadas em pesados discos de “acetatos”, a que chamávamos de “bolachas”. Eram feitos de alumínio e recobertos com uma massa parecida com esmalte seco.

Com produção cara, em comparação aos anúncios ao vivo, os “jingles”, assim chamados até hoje, eram produzidos em Londrina, com a gravação feita num estúdio em Goioerê. Gravei muitos desses nos anos 70. Os melhores clientes eram a Santa Rita Calçados, Varejão das Fábricas e Casa dos Retalhos; os maiores patrocinadores do Serviço de Alto Falante. Mas o primeiro serviço de propaganda da cidade não foi esse. Uma torre de madeira no “Bar Tupãssi” sustentava dois pares de bocas de falantes, nos anos 60. Não me lembro do nome do  locutor, que também fazia propaganda na rua com uma picape Willys, a antiga e famosa “Rural”.


Quando falo dele, me vem à mente sua imagem junto a um violão muito bonito, de quem ele não se separava nunca e, a velha Rural em alto som nas cornetas pelas ruas da cidade, jogando propaganda em panfletos, que nós, crianças, corríamos a juntar para brincar de “dinheirinho”. Toda vez que a Rural passava a molecada ficava “milionária”. A última notícia que tive desse moço é que morrera afogado em um rio do Norte. Do Panamá, nunca mais soube nada. Os outros três que citei no início trabalharam comigo na Rádio Jornal, nos anos 70 e 80. Roberto Silva ainda anda pelo Paraná, em alguma rádio. Antonio Peres é porteiro de prédio em Curitiba e Angêlo de Andrade está em algum canto do céu, tomando uns tragos, comendo cabeça de porco assada e cantando com o sobrinho Jecione e o parceiro Paulo Rei; que Deus os tenha (Foto: primeiro carro de som volante da cidade).

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